VITÓRIA NO DESERTO
Lição 13/15 – OS CRENTES DO DESERTO

Nos capítulos 8 a 12 de Deuteronômio, temos uma descrição do estilo de vida do povo de Israel no deserto, bem como uma explicação do motivo de sua peregrinação, durante quarenta anos. De acordo com o apóstolo Paulo, esse estilo de vida no deserto serve de advertência para nós, hoje.

 

“Ora, irmãos, não quero que ignoreis que vossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem, como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual, e beberam da mesma fonte espiritual, porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E essa pedra era Cristo. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão por que ficaram prostrados no deserto. Ora, essas coisas se tornaram exemplos para nós… Veja bem que a jornada no deserto serve para nós como advertência. Assim como o povo de Israel, nós fomos batizados no mar e na nuvem, e comemos do pão do céu e bebemos da fonte espiritual; todavia, devemos ser cuidadosos para que não desagrademos a Deus como aqueles o fizeram” (l Co 10.1-6).

 

Talvez alguém possa estar se perguntando: “Como posso desagra­dar a Deus?” A resposta é muito simples: “Não entrando em Canaã.” O propósito de Deus não foi tirar o povo do Egito para fazê-lo morrer no deserto. O alvo de Deus era Canaã. Contudo, por causa da incredulida­de, não puderam chegar até lá. Também desagradamos a Deus, quando vivemos fora do seu propósito para nós.

Vejamos, portanto, o que significa viver no Egito, peregrinar no deserto e conquistar Canaã.

Esses três estágios estão relacionados ao estilo de vida do homem, no âmbito natural e no espiritual, citado por Paulo em l Coríntios 2.14,15. Nesse contexto, o homem natural vive no Egito; o crente carnal peregrina no deserto; e o crente espiritual conquista Canaã.

Conforme narra o livro de Êxodo, os filhos de Israel foram escravos, no Egito, por um período de mais de quatrocentos anos. Ali sofreram horrores amargos sob as cargas que lhes eram impostas por Faraó. Nesse período, o que lhes manteve acesa a chama da esperança foi a promessa feita por Deus a Abraão, de que livraria a sua descendência da escravidão (Gn 14.13-14).

A partir do dia em que Adão transgrediu, o homem morreu espi­ritualmente, tornando-se escravo de Satanás. Evidentemente, não fazia parte do plano de Deus que o homem permanecesse nessa condição de privação espiritual e de derrota, assim como não era vontade de Deus que o seu povo, Israel, permanecesse no Egito, sob a tirania de Faraó.

Deus, então, através de Moisés, ordenou que cada família dentre os filhos de Israel tomasse um cordeiro sem defeito e o abatesse, sem quebrar-lhe osso algum. O sangue desse cordeiro deveria ser aspergido nas ombreiras e vergas das portas de suas casas, mas “a cabeça, e as pernas e a fressura” deveriam ser assadas e comidas (Ex 12.3-9). Esse ato foi designado de Páscoa, que significa passar por cima. Naquela noite, Deus executou seu juízo contra os egípcios e feriu todos dos egípcios desde o primogénito de Faraó até o dos animais (Ex. 12.13-14).

A imolação desse cordeiro prefigurava a morte de Cristo na cruz. E João Batista, ao encontrar-se com Jesus, fez referência a esse ato, dizendo: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29). Paulo também fez a mesma associação, ao afirmar: “Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado…” (l Co 5.7). Todos nós já sabemos que o propósito de Deus, na morte de Jesus, foi duplo: perdão e libertação. Fomos salvos da penalidade do pecado, visto que Cristo morreu por nós, e libertos do poder do pecado, porquanto aquela velha natureza pecami­nosa morreu com Ele.

O propósito de Deus para o povo de Israel foi este: libertá-lo da escravidão, a fim de que pudesse entrar na posse da herança – a Terra Prometida. Nas Escrituras, Canaã não tipifica o céu, antes ilustra o próprio Cristo vivendo, agora mesmo, a sua vida vitoriosa através de nós. Ele não apenas morreu em nosso lugar, por causa daquilo que temos feito, mas também ressuscitou para apropriar-se daquilo que somos. Ele morreu e ressuscitou para dar-nos o seu poder em troca da nossa debilidade; a sua sabedoria em troca da nossa insensatez; a sua paz em troca dos nossos conflitos, e a sua alegria em troca da nossa tristeza. Isto é Canaã. Fomos tirados para fora do Egito e levados para dentro da Terra Prometida.

Esse foi o propósito de Deus para o povo, naquele tempo, e é o mes­mo para nós agora. Ele deseja que o homem natural – destituído da vida de Deus, escravo de Satanás e destinado ao inferno – seja transformado em homem espiritual, ou seja: um homem cheio do Espírito de Deus, vivendo para Deus como instrumento de justiça e manifestando o reino de Deus sobre a Terra.

Então, qual a necessidade do deserto?

Esta é a tragédia que assola a Igreja hoje. Da mesma forma como assolou o povo de Israel no deserto, durante quarenta anos: muitos ainda estão lá… vagando, sem rumo. O número quarenta significa um tempo completo, para mostrar que o povo andou no deserto por toda a vida. O povo de Israel viveu numa pobreza que eles mesmos se impuseram, pois Deus já lhes havia dado a terra. No entanto, não quiseram crer que o Deus que os conduzira para fora do Egito era o mesmo Deus que poderia fazê-los entrar na Terra Prometida.

O deserto é uma figura dos crentes carnais, citados no Novo Tes­tamento. O crente carnal é aquele que foi redimido, mediante a fé em Cristo, recebeu o dom do Espírito Santo, mas ainda vive numa pobreza espiritual que a si mesmo impôs, debaixo das sutis influências de um ad­versário já derrotado – a carne. À semelhança do povo de Israel, o crente carnal não usufrui nem das panelas de carne do Egito, nem do trigo e do mel de Canaã – ele está abandonado no deserto.

O deserto é algo inevitável em nossas vidas, à medida que todos nós um dia também fomos crianças na fé (Toda criança na fé é carnal e ainda está passando pelo deserto). Todavia, viver toda uma existência no deserto é anormal. Houve um dia em que Deus conduziu Israel até um lugar chamado Cades-Barnéia. Dali, Deus mandou que se enviassem espias para observar a terra de Canaã. Dez deles voltaram com um relatório infamante, dizendo ser impossível conquistar a terra. Foram incrédulos. A partir daquele dia, começaram a peregrinar no deserto — tudo porque não creram em Deus. Não creram que o Deus que os fizera sair, também os podia fazer entrar.

O deserto é uma consequência da incredulidade. Paradoxalmente, todo crente carnal é incrédulo. Precisamos entender que o deserto não é apenas uma fase em nossas vidas, mas um princípio espiritual. Sempre que, por incredulidade, rejeitarmos a Palavra de Deus, seremos lançados no deserto. O tempo de nossa permanência ali depende exclusivamente de nós mesmos. Quando resolvermos voltar os olhos em fé para o Senhor, estaremos aptos a desfrutar as delícias de Canaã.

 

 

CARACTERÍSTICAS DA VIDA NO DESERTO

Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te pro­var, para saber o que estava no teu coração… (Dt 8.2).

Os crentes que vivem no deserto têm características próprias:

a. Motivação errada no coração

Motivação errada é a primeira característica daqueles que vivem no deserto. Realizam a obra de Deus, mas o que estão edificando é um monumento para si mesmos. Por esse motivo, o deserto não é apenas uma disciplina de Deus, mas a única forma de percebermos as motivações erradas no nosso coração.

Deserto é lugar de sol. É onde podemos nos ver à luz de Deus. De­serto é lugar de sequidão. Todo aquele que vive no padrão da carne é seco, árido, não tem nada para ministrar ao outro. Todavia, pelas constantes frustrações sofridas, a luz de Deus manifestará as motivações erradas do nosso coração e, depois disso, poderemos avançar para a Terra Prometida.

Em Êxodo 13.3,5 lemos: “Disse Moisés ao povo: lembrai-vos deste mesmo dia, em que saístes do Egito, da casa da servidão [...] quando o Senhor te houver introduzido na terra [...] guardarás este rito…”

b. Ausência de celebração

Somente depois de entrar na Terra Prometida é que o povo de Israel poderia celebrar, com revelação, o dia da Páscoa. Não se deixe enganar pela significação comum atribuída a Canaã, em muitos hinos. Canaã significa a vida ressurreta e vitoriosa em Cristo, agora, e não essa mesma vida, algum dia, no céu.

Só podemos celebrar a redenção, com revelação, vivenciando a plenitude da vida ressurreta. Isto é um princípio espiritual.

A Páscoa era para ser contada aos filhos (Ex 13.8). Não é difícil imaginar quão pouco impressionado se sentiria um menino no meio do deserto, se o seu pai lhe dissesse que a páscoa era uma celebração da libertação do Egito. O que ele havia presenciado até aquele momento? Somente isto: maná no café da manhã, maná no almoço e maná no jantar. Aquele pobre garoto já havia visto isso durante treze anos ou mais, e todo mundo sabia que ele iria comer maná novamente na manhã seguinte. Penso que, diante disso, esse garoto faria esta pergunta: “Pai, se a páscoa é isto, não seria melhor voltar para o Egito? Ouvi dizer que lá as coisas eram bem mais interessantes do que aqui, neste deserto.”

Talvez seja esse o motivo por que muitos filhos de crentes não se convertem. Isso acontece porque muitos pais vivem toda a sua experiência no deserto. Demonstram tão pouco da plenitude da vida cristã aos filhos que, inevitavelmente, eles buscam algo que os alivie da monotonia do deserto. Deserto é um lugar de tédio. Aqueles que vivem no deserto estão entediados, pois para onde quer que olhem vêem apenas areia.

Sabemos que o Senhor ordenou a celebração de três grupos de festas, e todas elas estavam ligadas com o plantio e a colheita. Em Êxodo 23.14-16, lemos: “Guardarás a festa da sega dos primeiros frutos do teu trabalho, que houveres semeado no campo, e a festa da colheita, à saída do ano, quando recolheres do campo o fruto do teu trabalho.”

Ora, o que os israelitas semearam no deserto? Nada. Qual o trigo que possuíam para celebrar a festa dos pães asmos? Nenhum. Nesse caso, como poderiam festejar no deserto?

Deserto não é lugar de festa, mas de tédio. Fico imaginando por que muitos crentes não conseguem se alegrar em Deus, no louvor e na adoração. Certamente estejam ainda no deserto; por isso, não podem festejar diante do Senhor (Dt 12.7).

c. Indisciplina e falta de compromisso com Deus

“Lá comereis perante o Senhor vosso Deus, e vos alegrareis em tudo o que puserdes a vossa mão, vós e as vossas casas, no que vos tiver abençoado o Senhor vosso Deus. Não procede­reis em nada segundo estamos fazendo aqui, cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos” (Dt 12.7-8).

Por esse texto percebemos que a vida no deserto era bem triste — sem fruto. No deserto, não se semeia nem se colhe nada; logo, podemos afirmar que o crente carnal, que vive no deserto, também não semeia nem colhe coisa alguma. Ele não possui fruto nenhum para apresentar a Deus. Isso certamente acontece porque ele faz o que bem lhe parece aos próprios olhos. Não havia entre o povo de Israel, no deserto, um senso do senhorio de Deus. Cada homem fazia o que achava mais acertado. Sua conduta era controlada por suas próprias convicções — talvez sinceras — mas sem a direçáo do Espírito.

Se, ao tomar direções, você é guiado apenas pelo seu próprio enten­dimento, então você ainda está no deserto e, como foi dito, aqueles que estão no deserto não podem agradar a Deus (l Co 10.5).

d. Não entram no descanso de Deus

“Pois até agora não entrastes no descanso e na herança que vos dá o Senhor vosso Deus” (Dtl2.9).

“Portanto, resta um descanso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas” (Hb 4.9,10).

Enquanto vivermos apenas para fazer aquilo que agrada ao nosso coração, jamais desfrutaremos o descanso do Senhor, razão pela qual somos atribulados por preocupações e ansiedades. Esse descanso, prometido na Palavra de Deus, é tipificado por Canaã. Não o descanso sem a luta, mas o descanso da fé tranquila — aquele que opera tudo em todos. Se ainda não entramos nele, com certeza, é porque ainda vivemos no deserto.

e. Não se apropriam da herança

O texto de Deuteronômio também nos diz que os que estão no deserto ainda não se apropriaram de sua herança em Deus. Já men­cionamos o fato, ocorrido em Cades-Barnéia, quando os espias foram observar a herança (a Terra Prometida), mas não creram em Deus para se apropriarem dela. Veja bem: a incredulidade é o único motivo que nos impede de desfrutar tudo aquilo que Deus tem para nós em Cristo. Se não crermos na cura, não a veremos. Se não crermos na prosperidade, não a teremos. Se não crermos na vitória, nem mesmo lutaremos. Se o inimigo conseguir minar a nossa fé, então já não representamos nenhum perigo para ele. O deserto é o lugar dos incrédulos. Todo crente carnal é também um incrédulo.

A incredulidade impediu o povo de Israel de conquistar toda a terra de Canaã. A incredulidade fez com que se sentissem pequenos, insignificantes e ineficazes, diante de adversários que o Senhor já havia entregado em suas mãos. Olharam para si mesmos, dizendo: “… éramos aos nossos próprios olhos como gafanhotos…” (Nm 13.33). Essa atitude não reflete humildade; ao contrário, expressa dúvida, incerteza, temor, insegurança, incredulidade…

O crente carnal, que não entende a graça divina, julga que Deus depende de seus esforços e capacidade humana para assegurar-lhe a vitória. Que sem a ajuda dele, Deus não conquista coisa alguma. Esta é a expressão de uma mentalidade carnal, cuja consequência é a morte. O Senhor espera que, ao olharmos para Ele e para as suas promessas, possamos dizer, como Calebe: “Eia, subamos e possuamos a terra” (Nm 13.30).

f. Mente mundana

“E o populacho, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo das co­midas dos egípcios, pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar, e também disseram: Quem nos dera carne a co­mer? Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça, dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das ce­bolas e dos alhos. Agora, porém, seca-se a nossa alma e nenhuma coisa vemos senão este maná” (Nm l1: 4-8).

Nada além de maná. Maná no café da manhã, maná no almoço, maná no jantar e, no outro dia… maná, novamente. Depois de algum tempo, temos de concordar que, com tantos pratos à base de maná, o car­dápio torna-se monótono. Entretanto, não era a intenção de Deus fazê-los comer maná por um período tão prolongado. Deus havia preparado para eles a terra de Canaã, mas eles preferiram ficar no deserto, sonhando com o Egito. O maná era bom, ao servir o propósito para o qual foi enviado; mas, originalmente, sua finalidade não era tornar-se dieta básica dos filhos de Israel durante quarenta anos.

Temos, então, no deserto, um povo redimido, comprado do Egito, liberto de Faraó, cuja mente ainda estava presa ao Egito. Aqueles que, apesar de redimidos, ainda vivem no deserto, têm o apetite espiritual des­pertado para as coisas mundanas. O cristão do deserto, invariavelmente, é um homem mundano.

Poderíamos citar ainda muitas outras características. No entanto, basta-nos a exortação de Paulo, em l Coríntios 10.1-13, aconselhando-nos a não viver conforme o exemplo de Israel: homens incrédulos, idólatras, imorais e, acima de tudo, murmuradores — sempre insatisfeitos com a vida. Quão triste e quão amarga é a vida no deserto!